OPINIÃO! Desembargador Antonio Cavalcante homenageia seu pai

Relatos do mundo e de meu pai

Escritor Antonio Cavalcante da Costa Neto (Foto: Reprodução)
Se estivesse sob a régua cronológica deste mundo, meu pai teria feito cem anos neste vinte e um de abril. Sobre ele já falei muitas coisas, e outras tantas ainda poderia falar. Da generosidade do seu coração; de ser um homem à frente do seu tempo; do bom humor ao lembrar que nasceu no mesmo dia da rainha da Inglaterra; da extrema gentileza que fez uma colega professora comentar: Seu João é tão educado, que às vezes dá raiva. 

Meu pai era adolescente quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu. Ele nos contava que as notícias do front vinham de trem. Alguém ia pegar o jornal na estação de Duas Estradas, e trazia para seu irmão mais velho ler as notícias para várias pessoas que o ouviam atentamente.

Imagine a cena. Tio Zé Pereira lendo o jornal para um grupo de pessoas a seu redor, feito o Capitão Kidd, do filme Relatos do Mundo. Mesmo sem sair de cidade em cidade, como fazia o veterano de guerra interpretado por Tom Hanks, ele era instrumento de conexão entre mundos tão diferentes. Para muitas pessoas de Serra da Raiz não havia outro modo de ter acesso àquelas informações.

Passaram-se os anos e meu pai passou a colecionar revistas sobre a guerra. Como explica o plano da obra, eram fascículos semanais de “A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, profusamente ilustrados com extraordinário material fotográfico” e “separando previamente as quatro páginas da capa, com as páginas interiores pode-se formar um tomo cada 12 fascículos com luxuosas capas.” 

Sou econômico com adjetivos (e advérbios deles derivados) em meus textos, e costumo avaliá-los nos alheios. Posso, então, confirmar a profusão das ilustrações e o extraordinário material fotográfico das revistas. Quanto ao luxo das capas, para mim parece exagero. Mas não me dou o direito de, com meus critérios, julgar os padrões editoriais da época. E é aqui que eu entro na história das revistas.

Minha infância foi numa casa de muita gente e poucos cômodos. Um banheiro só para todo mundo – quem passou por isso sabe do que falo –; panelas penduradas na cozinha numa “bateria” – os mais velhos talvez conheçam o termo –; poucas cômodas para guardar os pertences. Daí que o zelo de meu pai não era bastante para impedir que, vez por outra, eu pegasse um fascículo para ver as figuras, mesmo antes de aprender a ler. E dá para imaginar o resultado de um menino, sentado no chão, folheando uma revista.

Depois que meu pai faleceu, trinta anos antes da morte da rainha, pedi a minha mãe para ficar com o que restou dos fascículos. A encadernação começa com a revista sobre a batalha do Rio da Prata e termina com uma em que faltam páginas e as capas internas, com a matéria sobre o caminho para Pearl Harbor. Em várias capas individuais aparece a rubrica do meu pai. Guardo comigo esse tomo, no baú das minhas relíquias.

Fique claro que as predileções de meu pai iam muito além da história da guerra. Ele tinha paixão pelo magistério, pela música, por plantar árvores. E não se cansava de dizer que tudo para ser bem feito, tinha de ser feito com amor, o que, mais do que jogo de palavras, foi para ele missão de vida. 

Hoje as novidades de longe não chegam de trem. Nos relatos do mundo, consumidos em tempo real, as guerras ainda espalham medo e desesperança. Afinal, como nos lembra Yuval Harari, “a estupidez humana é uma das forças mais importantes na história, porém com frequência tendemos a desconsiderá-la,” enquanto poderosos governam seus mundos como se fossem tabuleiros de xadrez. 

Contra a estupidez, Harari prescreve uma dose de humildade: não cultivarmos a ideia de que “minha nação, minha religião e minha cultura são as mais importantes do mundo.” E eu acrescento a essa receita ao menos um gole diário de poção do amor, não só como retórica, mas como compromisso de vida.

Por Antonio Cavalcante (escritor, desembargador do TRTPB)
Em 13 de maio de 2026

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