OPINIÃO! Quem foi Zípora? Saíba no novo artigo de Dr. Antonio Cavalcante

A mulher com a pedra na mão

Desembargador Antonio Cavalcante (Foto: Arquivo Pessoal)
Faz quase dez anos que escrevi o texto Mentiras e mentiras. O artigo começa com a lembrança do lançamento do sabão Omo em nossa cidade, antes da exibição do filme Dio, como ti amo, e das lágrimas que rolaram no meu rosto de criança durante a cena do aeroporto, que comparei às que havia derramado ao assistir Coração de Luto. 

Houve um tempo, porém, que fui seduzido pelos filmes de ação. A infância, tal qual os cinemas fora dos shoppings, estava recém-instalada no retrovisor da minha vida. A nova onda eram as locadoras de vídeo, e a adrenalina cinematográfica vinha de estrelas como Van Damme e Bruce Willis, com os sucessivos Duro de Matar.

Cheguei à maturidade nos tempos do streaming. Agora zapeio nas nuvens em busca de filmes e séries que me levem a contemplar beleza e ternura em paisagens e diálogos. As tramas que me envolvem são as tecidas pelo cotidiano das relações humanas, com predileção por personagens que representam pessoas comuns, mas sem as quais o herói não seria herói.

Minha afeição por essas personagens vai além do audiovisual. Não consigo pensar no legado de Sócrates sem imaginar no peso que Xantipa, sua esposa, teve que carregar. O marido, o dia todo dialogando no meio da rua, sem trazer um tostão pra dentro de casa, enquanto ela, sozinha, tinha que dar conta dos afazeres domésticos e de três meninos. E o que sobrou para ela no registro da história? A pecha de razinza e impaciente. Sei não! No lugar dela, por mais genial que fosse o marido, na famosa discussão com Sócrates, acho que eu teria jogado mais do que um balde de água suja na cabeça dele.

Outra personagem que me desperta a atenção é Zípora. Todo mundo canta as proezas de Moisés. São tão conhecidas as histórias contadas no Texto Sagrado que a DreamWorks tornou O Príncipe do Egito o filme de maior sucesso não produzido pela Disney até então. When You Believe, tema da animação, interpretada por Whitney Houston e Mariah Carey, ganhou o Oscar de melhor canção original. Mas tanto nas páginas da Escritura, quanto no filme, todas as atenções parecem voltadas apenas para Moisés, resgatado nas águas do Nilo, criado no palácio, que depois de príncipe vai ser o libertador do povo, que abre o mar e recebe as Tábuas da Lei. Mas para Zípora, mulher de Moisés, resta o quase esquecimento.

Narra a Escritura que Zípora – Siporá ou Séfora em algumas traduções –  conheceu Moisés perto de um poço em Madiã. Ela e as seis irmãs tentavam dar de beber aos rebanhos do pai, quando apareceram alguns pastores e as enxotaram de lá. Moisés defendeu as moças, dando ele mesmo de beber aos rebanhos. 

Por este gesto de bondade, Jetro, pai de Zípora, não só convidou Moisés à sua casa, como lhe deu a filha em casamento, do qual nasceram Gersam e Eliezer. Durante anos a fio Zípora cuidou do marido e dos filhos, num período difícil na vida de Moisés. Não bastasse isso, num episódio um tanto enigmático, Zípora salvou Moisés da ira divina, quando Deus procurava fazê-lo morrer, e ela, pegando uma pedra afiada, cortou o prepúcio do filho. 

Comentaristas e intérpretes apresentam diferentes compreensões dessa passagem. Uma coisa, porém, parece certa. A libertação do povo, antes de passar pelo mar aberto por Moisés, dependeu daquela mulher com a pedra na mão, pois se a circuncisão era sinal da aliança de Deus com seu povo, o filho incircunciso colocava em perigo a vida do pai. Sem ela, o herói não teria sido herói.

Por Antonio Cavalcante (escritor, desembargador do TRT-PB)
Em 02 de agosto de 2026

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