OPINIÃO! Antonio Cavalcante alerta para mentiras no meio político
Para manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo
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| Desembargador Antonio Cavalcante (Foto: Arquivo Pessoal) |
Em tempos assim, cuidado para não virar joguete nas mãos de quem manipula a guerra retórica. Não vale a pena entrar de cabeça no olho do furacão de redes sociais. Indignação, no ponto certo – aqui vale invocar Aristóteles? – , faz bem ao cultivo de virtudes. Mas ficar pilhado o tempo todo compromete a sanidade mental.
Sempre que puder, recolha-se para meditar no seu jardim interior. Lembra daquele sonhado e cultivado por Rubem Alves? Nele o mais importante é a “poética dos espaços de dentro”; não a “estética dos espaços de fora.”
No meu, a contemplação floresce ao lado da música. Contemplação é função do intelecto. Assim diz a Filocalia. Às vezes a gente precisa se purificar dos pensamentos. Não só dos maus, mas da overdose dos bons. Só assim a alma chega mais perto do amor à beleza. Quanto à boa música – o “boa” depende de cada pessoa –, alguém duvida dos seus benefícios para se ter um coração tranquilo?
Coração tranquilo é título de uma canção composta por Walter Franco. Foi lançada em 1978, período também turbulento no cenário político brasileiro. Na época, era quase uma fórmula musical de sobrevivência psicológica e emocional. Mais de vinte anos depois, foi regravada pela Pato Fu, trazendo para as novas gerações a letra que é um verdadeiro mantra: “Tudo é uma questão de manter/ A mente quieta/ A espinha ereta/ E o coração tranquilo.”
Mantra é instrumento de sabedoria. É energia vibracional que protege a mente. Ao mesmo tempo, eleva não só o nível de consciência, mas a alma e o coração para o Transcendente. Guardadas as devidas proporções, é uma espécie de oração. Pois oração, na sua essência, é contemplação. Ou como ensinava São Gregório do Sinai, é energia do coração, ação divina na alma humana, restaurada pelo batismo.
Outra fonte de sabedoria encontra-se nas máximas que nos legaram os antigos. Desde o tempo em que postagem em rede social era inimaginável, o livro dos Provérbios ensina que o néscio não gosta da discrição, mas de publicar o que pensa. Pois uma regra básica da disciplina sapiencial é o controle da língua pela mente. O Eclesiástico, por sua vez, diz que não se deve criticar antes de averiguar; primeiro se indaga, depois se julga.
Tem hora que até melhor sequer julgar os outros. Anselm Grün, no livro Tranquilidade do Coração, relembra um conhecido diálogo entre dois abades. Poimen desejava tornar-se monge e manter o coração tranquilo. Por isso foi aconselhar-se com José, que lhe disse: “Se queres encontrar tranquilidade aqui e agora, então diz em cada ação: Eu – quem sou eu? E não julgues ninguém.”
Nada disso nos livra das preocupações da vida. Existência humana é preocupação, como nos lembra Heiddeger. Por isso a questão é como manter a mente quieta e o coração tranquilo mesmo em tempos turbulentos, sabendo que ninguém é dono da verdade, mas como exortou Paulo aos Efésios, que dá para saber quando querem nos fazer joguetes da mentira.
Tudo isso pode ser feito sem abrir mão dos princípios éticos. Manter a espinha ereta requer firmeza para não entrar no jogo de quem aposta na impunidade do mal como caminho mais fácil. Se o ser humano vale mais do que tudo o que possui, que aproveita a ele ganhar o mundo inteiro e perder-se a si mesmo? Melhor a luz da verdade que se perder na escuridão.
Por Antônio Cavalcante (escritor, desembargador do TRT-PB)

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