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OPINIÃO! Juiz Antonio Cavalcante pede cuidados contra o Covid-19 e lembra proxêmica

Proxêmica e amor ao próximo

Escritor Antonio Cavalcante (Foto: Arquivo próprio)
Certa feita, um padre europeu, que dedicou sua vida ao nosso povo, submeteu-se a uma cirurgia. No pós-operatório, passou uns dias recolhido, em convalescença. Quando fomos visitá-lo, ele disse que poderia ter feito o procedimento em seu país, que tinha serviço médico de primeiro mundo. Preferiu, porém, fazê-lo aqui porque os profissionais de saúde de lá tinham uma postura mais fria e distanciada dos pacientes, diferente das comunidades com as quais ele estava acostumado a conviver, de acolhimento caloroso, de abraços apertados, de alegria nos gestos e palavras, de receber visita, mesmo de surpresa, compartilhando o pouco ou muito que têm à mesa.

Somente anos depois dessa visita, aprendi que existe uma área do saber que tem como objeto a proximidade e a distância entre pessoas e coisas durante as interações. Pense no seguinte exemplo. Você está esperando sua esposa fazer compras num shopping, situação perfeita para exercitar a necessária virtude conjugal da paciência. Procura um lugar para sentar. Olha ao redor e vê um banco com outro obediente sentado numa das extremidades. Em vez de sentar pertinho dele, senta na outra ponta do banco, deixando um espaço razoável entre vocês. 

Esse tipo de comportamento é pesquisado pela proxêmica, que estuda não apenas a distância que as pessoas mantêm entre si em suas interações, mas a existência ou não de contato físico entre indivíduos de diversas culturas. Apertos de mão, abraços e beijos são comuns em nosso meio. Os japoneses, porém, preferem cumprimentar acenando a cabeça. Existem até países em que não é permitido o contato físico em público. 

Com base nessas diferenças, costuma-se distinguir culturas de alto e baixo contato. Dizem os estudiosos da proxêmica que as culturas nórdicas apresentam tendência para o afastamento, mantendo uma distância relativa maior entre as pessoas, enquanto as latinas e tropicais, como a nossa, são de muita proximidade e intenso contato nas interações.

Neste momento em que sofremos os terríveis efeitos de uma pandemia, temos de mudar temporariamente as fronteiras de nossa proxêmica. Cada um tem de fazer seu dever de casa. Redobrar o cuidado com a higiene, com o constante lavar as mãos, não circular pelas ruas sem necessidade, e entender que o distanciamento físico, especialmente em relação aos mais vulneráveis ao males do contágio, é uma prova de amor ao próximo. 

A suspensão do contato físico, porém, pode ser substituída por um maior contato por meio das redes sociais. Se antes, mesmo perto ficávamos longe, em redes antissociais, agora é hora de torná-las verdadeiramente sociais. Compartilhar mensagens, notícias e informações que ajudem outras pessoas a evitar o contágio e enfrentar a crise, e evitar entupir as redes com fake news, insultos e mesquinharias. Hoje é mais fácil se comunicar por ligações de áudio e vídeo, manter conversas e mandar beijos e abraços virtuais. Colaborar com as medidas sérias das autoridades sanitárias, sem apavorar ninguém, mas tomando todos os cuidados. Quem é jovem e saudável, pelo amor de Deus e por amor ao próximo, jamais pense que o problema não é seu. Pense na situação do outro e ajude como puder.

Depois que o pior passar – pois uma das certezas da vida é que na vida tudo passa, e dependendo do nosso comportamento poderá passar mais rápido  e com menos sofrimento –, nossa proxêmica voltará aos dias de ficarmos pertinho, dias de apertos de mão, beijos e abraços apertados. E se tivermos juízo, haveremos de fazer não só o dever de casa, mas aprender lições de vida. 

Que lavar as mãos é para exterminar o vírus e não fazer como Pilatos, entregando o Justo ao sacrifício. Não colocar a economia acima da vida, reduzindo salário de quem mais precisa. Que os gestores do nosso dinheiro ajudem empresas a não fecharem, evitando demissão em massa. Que sejam feitos programas de renda mínima. Que cientistas e profissionais de segurança e saúde – e nestes além dos médicos e enfermeiros, lembro agentes de limpeza e funcionários das lavanderias de hospitais, garis e tantos outros – sejam tidos como heróis não só agora. Que os donos do capital entendam que se o capitalismo não existe sem lucro, também não pode existir sem vidas humanas, e não se sustenta na extrema desigualdade social. Que aprendamos que amar ao próximo não é só cuidar de quem está perto, mas globalizar a fraternidade. E que Deus nos permita voltar o mais rápido possível à nossa proxêmica. Ele que está não apenas acima, mas no meio e dentro de nós. 

Por Antonio Cavalcante (Juiz da Vara do Trabalho e escritor)
Publicada por F@F em 22.03.2020, às 17h

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