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OPINIÃO! Juiz Antonio Cavalcante relaciona significado das palavras com pandemia

Lave, leve, live, love

Juiz Antonio Cavalcante (Foto: Arquivo Pessoal)
Veja as quatro palavras do título. Basta trocar uma letra, que muda o que se quer dizer. Na terceira, que como a última, mesmo em inglês, é mais conhecida do que muitas palavras em português, a letra “i” não é a mesma de Iolanda Dantas, musa inspiradora de Zé Dantas, na canção consagrada por Luiz Gonzaga, e que ficou linda na voz da neta do compositor, Marina Elali: “Vai cartinha fechada, não deixa ninguém te abrir, àquela casa caiada donde mora a letra I”. Diferente deste, o “i” de “live” é “ai” de “laive”, pois letra é diferente de fonema. Este é pedacinho de som da fala, que distingue significados das palavras. Se pela Palavra o mundo foi criado, se pela palavra se expressa o mundo, quando se muda o fonema, de certa forma muda-se o mundo. Essas palavras e ideias se misturaram em minha mente, num momento de insônia na madrugada, quando comecei a pensar no que tem sido esses meses de quarentena.

Lave, lave, lave! Eis o mandamento que a pandemia martela na consciência. Lavar as mãos, os utensílios domésticos e o que entra em casa, vindo do mundo exterior ao nosso abrigo. Tudo lavado, relavado, “trilavado”. Parece neura, mas não é. Bem diferente da histeria religiosa de fariseus que em tudo viam impureza, e que Jesus não tolerava, no caso da contaminação por esse coronavírus, o mal não é só o que sai da boca do homem. Mas penso em quem não tem casa para se abrigar; em quem não tem com que lavar o que precisa ser lavado; em quem faz a lavação sem compartilhamento do serviço doméstico; em quem se arrisca para desinfectar o que está contaminado, sem um salário decente.

Leve, como adjetivo, qualifica o que não é pesado. Como professor e juiz, meu trabalho, mesmo em casa, não tem sido tão leve assim. Produzi conteúdo para o YouTube, dei aulas com transmissão ao vivo, fiz audiências telepresenciais, além de fazer mais do que já fazíamos, juízes e servidores, com o processo eletrônico. E ainda tem gente que acha que teletrabalho é moleza. Vê o trabalho como lugar para onde se vai, e não como o que a pessoa faz. Se alguém está em casa, pensa que não está fazendo nada porque não foi para o trabalho. Só depois da obrigação, a devoção e a diversão têm sido no compasso da música e da leitura. Não sou músico, nem romantizo a pandemia, mas gosto de compartilhar músicas que toco, e espalhar mensagens positivas, na intenção de tornar a vida mais leve para mim e para os outros.

Lives, participei de três. Com um sobrinho neurologista, sobre Justiça do Trabalho e direito à preguiça, expressão que tomei emprestado de Lafargue, num artigo sobre direito ao ócio e ao lazer. Com um amigo músico e professor, para a escola onde atua, sobre educação e o papel do professor. Aproveitei para lembrar de “um coração jardineiro”, título da apresentação que tinha feito para professores, e que também está no YouTube. E por intermédio de outro sobrinho, professor de uma Escola Técnica, para gestores e professores, sobre direitos humanos e educação. Aprendi muito com as três. Live pode servir para formação pessoal, entretenimento e espiritualidade, entre tantas coisas, e penso que veio para ficar. Mas como tudo na vida, não deve abrir mão do senso crítico. Digo isso primeiro a mim mesmo, para não deixar subir à cabeça a tentação de achar que sou influenciador de quem quer que seja.

No dia dos namorados, dediquei à minha esposa a canção Amor, I love you, de Marisa Monte. Como diz a letra da música, dizer a alguém “eu te amo” nos ajuda a viver. Mas nas coisas do amor palavras não bastam, nem que sejam em inglês. É fácil cumprir juras de amor no bem-bom. Quero ver na tristeza e na doença. Mas se o amor, como diz a música de Zé Dantas, fumega no coração tal e qual fogueira de São João, bem que ele pode nos ensinar que amar também pode ser deixar de acender fogueira, para respeitar o direito de se respirar ar puro e não fumaça; amor de máscara e luva, para cuidar da saúde do outro; amor em qualquer língua e que não tolera preconceito; amor que vem de Deus, Verbo que tudo criou. E tal e qual os fonemas, que mudam o sentido do que se diz, que o amor mude o rumo do que estamos fazendo com o mundo por Ele criado, casa comum que nos deixou para cuidar.

Por Antonio Cavalcante (escritor, juiz da Vara do Trabalho em GBA)
Publicada por F@F em 28.12.2020

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