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OPINIÃO! Juiz e escritor Antonio Cavalcante relata o verdadeiro amor de Mãe

Amor de mãe

Juiz Antonio Cavalcante da Costa Neto (Foto: Reprodução)
Não é da novela que acabou que eu venho falar. É de um amor que, quando existe, parece não ter igual no mundo. Sei que tem mãe que mata o filho que saiu do seu ventre, e madrasta que ama o que nasceu do coração. Mas na bolsa de valores das palavras, a cotação da palavra mãe é bem maior que a de madrasta. Se alguém diz que a vida é madrasta, certamente não fala do lado bom da vida, o que em parte se deve à força simbólica dos contos de fada em que princesinhas sofrem nas garras de madrastas malvadas.

Tão alto pode chegar o amor de mãe, que não raro se enxerga traços maternos no coração de Deus. Tão fortes são esses dois amores, que o profeta os compara: “Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem eu não me esqueceria de ti” (Isaías 49,15). E há quem veja um comportamento mais parecido com o de uma mãe, quando o pai da parábola do filho pródigo recebe o rapaz que volta para casa arrependido. Segundo a narrativa, o pai nem espera o filho se aproximar. Quando o avista ainda longe, corre ao encontro do filho para abraçá-lo, cobrindo-o de beijos.

É claro que a gente não pode generalizar, e achar que coração de mãe seja sempre mais compadecido que o de pai. Às vezes quero crer que até o meu tem qualidades ou defeitos costumeiramente atribuídos aos das mulheres. Mas sei muito bem que essa história de que sensibilidade é coisa de mulher, e racionalidade, privilégio de homem, é argumento que não resiste ao crivo que separa falácias de evidências. Também sei que amor e ódio não escolhem fazer morada no coração de ninguém pelo fato de ser homem ou mulher, nem faço acepção de pessoas em razão de gênero ou sexo.

Sinceramente, fico até sem entender o grande valor que se tem dado ao anúncio de que é menino ou menina uma criança que vai nascer. Quando digo isso, não é para criticar quem faz chá de revelação. Longe disso. A simples notícia de que um casal vai ter um bebê é uma boa nova, e é sublime a imagem da mulher grávida, como sacrário da perpetuação da vida. Mas como eu nunca gostei de fazer qualquer coisa só porque outras pessoas fazem ou porque alguém manda, ainda estou à espera de um bom argumento que me convença da importância desse evento.

Minha predisposição em querer, desde cedo, reger minhas próprias ações, era um dos motivos de minha mãe me considerar um tanto rebelde. Ela nunca escondeu isso de mim, nem de pessoas próximas. Minha mãe, que não era de um amor de retórica, mas de ação, também falou mais de uma vez sobre a cena do meu nascimento. Ela e a parteira no quarto da casa, enquanto meu pai, na sala, tinha que dar atenção a outras pessoas que, se não me falha a memória, eram fregueses de algum comércio que meus pais mantinham. Minha mãe contava que “não deu um pio”, porque não era mulher de fazer “pantinho”. E o mais importante, disse que, quando nasci, eu era bonito. Eu acredito que era mesmo, pois minha mãe não era mulher de mentir para agradar ninguém.

Lembro de minha mãe, todo santo dia. A saudade aumenta quando chega perto do dia das mães. Tive sorte de receber amor de minha mãe e de meu pai. Desde menino eu me identificava mais com ele, especialmente no gosto pelos livros e pela música. E quanto mais o tempo passa, mais consigo ver como ele era um homem admirável, de coração bondoso e acolhedor, tanto educado e ético quanto crítico e inteligente, com suas tiradas espirituosas e bem humoradas. Mas não posso negar que, apesar da maior identificação com o mundo habitado por meu pai, são incomparáveis, em minha alma, as marcas do amor da minha mãe. Os laços que nos unem transcendem a herança genética e a convivência amorosa. Quero crer que foram reforçados pelos fios dos mistérios de uma vida gestada no ventre de outra vida. Quem sabe não seja por isso que eu, um homem que caminha para as portas da velhice, às vezes me pego chorando, com saudade do colo de minha mãe.

Por Antonio Cavalcante (Juiz do Trabalho, escritor e professor universitário)
Publicada por F@F em 13.06.2021

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