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OPINIÃO! Percinaldo Toscano escreve sobre ruas de Guarabira

Além da minha rua

Professor Percinaldo Toscano (Foto: Arquivo Pessoal)
Em minha cidade, irmã de tantas outras sob o mesmo céu, as ruas se multiplicam, em face do êxodo rural e do fascínio incontrolável pelos prazeres do consumo. São veias abertas no chão, traçando mapas que se iniciam nos confins dos bairros taciturnos, onde a calma reside, e se alongam por uma via asfaltada até o coração pulsante da vida urbana, onde explode a dança febril de sons e movimentos, constituindo o tecido vivo da cidade.

Sejam pavimentadas, asfaltadas, sem pavimento algum – ainda sob chão batido - todas carregam consigo uma alma vestida de imutáveis sentimentos emocionais, expondo as agruras e levezas do cotidiano.

Assim como as cidades, a energia das ruas habita nosso sistema sanguíneo na oxigenação das ideias que nos leva a constituição de nossa própria história. Nelas, as arvores, as pedras, os cantos dos sapos e grilos sonorizam os encontros infantis à luz prateada dos céus.

Não muito distante, conheci os percalços de minha querida Rua do Tambor - única dos meus sonhos – com falda d’agua, sem pavimento, mas ornamentada de esperança, da alegria de brincar nas noites, sendo banhado pelo luar vindo do Leste.

Adjacentes a minha rua, habitei tantas.  Rua do Sol, a primeira a ser aquecida pelos raios solares da manhã; Rua do Mosquito, onde pratiquei minhas primeiras aulas de futebol ao lado dos amigos: Bira, Batista, Geovane e Pelé, esse o melhor entre nós.

A Rua do Boi Choco (hoje Prefeito Manoel Lordão) sempre foi emblemática, talvez por abrigar a escola Antenor Navarro (1933) - meu primeiro berço das letras - ou por nos guiar até a estação do trem da Great western, passeio fascinante pela temerosa travessia da ponte de ferro sobre o Rio Guarabira, temível nos dias de inverno.

As ruas do passado – ainda latentes em mim – tinham seus nomes mais carinhosos, amáveis e solidários com seus moradores, criando uma conexão direta com a paisagem local. 

Rua da Matriz, ornada pelo casario do final do século XVIII, tendo seu maior exemplar a Igreja de Nossa Senhora da Luz; Rua do Riacho dos Cachorros, Rua da Estrela, que fazia brilhar corpo e alma das vidas boêmias; Rua do Chamego, do Juá e outras mais. 

Existia sim, uma cumplicidade do “eu lírico coletivo” com a nominata dos logradouros. No processo de simbiose entre moradores e ruas, surgiram, ainda, as ruas da Baixinha, da Barreira, da Barra, Rua do Cachimbo Eterno, Rua do Lenço e muitas outras.

As nomenclaturas populares atribuídas as ruas, além de belas e legítimas, marcam a existência de pessoas singelas que ali residiram como Maria de Cané, que teve seu nome aplicado sobre a caliça da ladeira de suas desventuras; Joana Toco, assim como Maria de Cané, emprestou seu nome a outra ladeira da vida urbana de Guarabira.

Existe coisa tão original como Ladeira do Tororó? Desafiando a tudo e a todos nas invernadas.

Vez em quando volto a imaginar: Quem dotado de tanta insensibilidade e pobre de poesia, substituiu nomes de ruas como Rua do Lenço, Rua do Cedro, Rua do Sol, que a exemplo da cidade do Recife recebe o nome de Rua da Aurora, por ser a primeira a receber os raios solares ao amanhecer.  Que desdita dos nossos legisladores do passado ao substituir a memória coletiva, tão viva, por nomes nada importantes em nossas vidas.

O poeta compositor Alceu Valença, em “Pelas ruas que andei” faz uma clara homenagem ao sentimento de pertença do povo Recifense. No Rio de Janeiro mantem-se viva a Rua da Lapa, reunião de boêmios, sambistas e cultura Carioca 

Diante a complexidade e a simplicidade das coisas vivas, o que poderia fazer nossos atuais legisladores, pelo menos, é colocar ao lado do nome oficial das ruas, aquele que outrora nos deu endereço.

Guarabira, 13 de novembro de 2025

Por Percinaldo Toscano (professor, historiador)
Publicada em 14 de novembro de 2025
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